Divisão de um apartamento no centro do Porto.
Época actual. Uma janela aberta. Cama corpo e meio, um
bengaleiro, uma poltrona de frente para o público que faz o
lugar de toucador, um armário e um manequim. Este sem rosto, de
madeira, nu, dobrado como O Pensador de Rodin.
À frente dele um tabuleiro de xadrez sobre
uma mesinha. Num dos lados uma cozinha e um bar. Mesa com telefone.
Contra um biombo vemos um placar com recortes de jornais presos por
alfinetes metálicos. No extremo oposto, uma escada comunica com
um terraço do qual se vê o céu e as cúpulas
de algumas construções. Ouve-se o ruído do
tráfego vespertino.
Francisca Albuquerque, uma mulher rechonchuda, com
cerca de cinquenta anos, de roupão, entra vinda do banho
pensativa. Uma toalha cobre a sua cabeça. Fecha a janela, o
ruído do tráfego acalma. Dirige-se até ao
armário e abre-o. Observa.
Francisca
(Falando a alguém com naturalidade, mas sem o ver.) Ainda
não sei como me vestir. Estive a pensar durante todo o dia,
inclusive no trabalho. Já te disse que quero ficar bem. (Sorri.)
E hás-de saber que o faço por ti! (Pensativa.) A minha
avó nunca acreditou muito na maquiagem. Nem na roupa. Como nos
tempos bíblicos. Deves esforçar-te por a compreender. Ela
nunca se enquadrou neste século.
(Enquanto fala, tira do armário um casaco coçado e uma
mini-saia. Estende-os sobre a cama.)
É uma pena que não a tenhas conhecido... (Suspira.) Mas
isso também não te importa. Não
é? Deixemos que os mortos enterrem os seus
mortos.
(Senta-se sobre a cama. Põe o casaco.)
Vejamos: que tal esta roupa? Não está mal, sabes. Mas
talvez seja demasiado sofisticada para o teu gosto.
(Pega numa mini-saia.)
Umas calças, nem pensar. O seu corte justo denuncia os gordos.
Esta mini-saia é sensual e atrevida! Ema sempre mo disse.
Admitirás que as minhas pernas são firmes. Quarenta anos
caminhando daqui até à estação dos
autocarros. (Pausa.) Uma coisa é certa. Todas as manhãs
descubro alguma mulher comentando nas minhas costas. Ficam vermelhas de
inveja. Não é para te envergonhar. Se soubessem que
quando era jovem podia parar o trânsito com os meus movimentos.
(Luz baixa. O tráfego aumenta. Desfila. Balança-se ao
caminhar. Barulho de acidente. Sorri. Luz sobe.)
Devias animar-te. Já sofro muito tentando agradar-te. (Pausa.)
Todos os homens são iguais, é uma frase de quem
não se atreve a conhecer o mundo. (Pausa.) É
inútil.
(Pausa.)
Sim. Tu podes ser a excepção entre eles. Enquanto
não te conheço. Quero dizer até ao
fundo. Tudo o que é fundo me mete medo.
É obscuro. Só gosto do fundo deste armário. Nunca
te escondeste ali quando eras pequeno? Eu escondia-me com o meu
irmão Júlio para escapar aos castigos da minha mãe.
(Entra no armário.)
Então o mundo ficava maior.
(Sai aparatosamente.)
Porque é que discutimos? Dentro de pouco tempo saberemos a
verdade. Com paciência tudo passa. Logo que nos calemos e falemos
de algo coisa mais interessante. (Olha para dentro do armário.)
Não achas que os vestidos cor de rosa estão na moda?
Não. Estamos de acordo.
(Senta-se desolada.)
Apenas sei que vivemos juntos dois anos. Mas não saber o que
vestir para o meu primeiro encontro, nunca pensei que aconteceria. Em
dois anos podem acontecer tantas coisas... Tu, por exemplo, podias
ter-me abandonado por uma rapariga com headphones nas orelhas... Ou eu
a ti por... por... Como se chama aquele actor da telenovela da noite?
(Olha para o manequim. Dá uma gargalhada.)
Não me olhes dessa maneira, Guilherme. A responsabilidade
é dos dois. A nossa relação fechou-se como um
círculo. Melhor ainda, como uma esfera. Sempre te negaste a
falar comigo sobre o nosso primeiro encontro. E é normal que os
casais o façam, não achas? (Feroz.) É natural,
não é? Há acontecimentos na vida que não
podemos evitar, sob pena de se ter um desgosto terrível, cada
manhã, quando se acorda junto a um desconhecido.
(Pausa.)
Ao fim e ao cabo o encontro é com Guilherme.
(Pausa. O seu rosto torna-se agressivo.)
Está bem. Não te preocupes. (Sorri.) Sabes que eu te
desculpo sempre. E quero que entendas. Não é uma
questão de censura. Não franzas a testa, que já
bastantes rugas te deram os teu alunos. Alunas, deveria ter dito, mas
não te quero ofender pelo mero prazer de te ofender.
Conquistar-te será tão difícil como...
conquistar-te. Conquistar-te será tão difícil como
conquistar-te! Sim. Foi isso que eu disse. Claro como a água.
(Pausa.)
Ah! Não te esqueceste do nosso primeiro encontro. (Mal
humorada.) Preocupaste-me. Durante ano e meio desapareceste; não
telefonaste nem escreveste; nem tão pouco um postal. Isso, ao
menos, tinha-me consolado. Eu acho... acho que foste injusto comigo.
(Senta-se em frente ao toucador. Maquilha-se. À medida que fala
a luz vai diminuindo e adquire as tonalidades do anoitecer.)
Angustiaste-me. Pensei que me tinhas esquecido, que renunciavas
à tua felicidade. Porque ninguém, ouves-me,
ninguém tem paciência para te tratar como eu o
faço. O nosso encontro não será nem casual nem
passageiro, como tantos outros.
(Pausa.)
Ainda assim esperei por ti, como Penélope, a esposa mais
virtuosa. Trabalhando e ganhando o meu salário. Trabalhando e
ganhando. Ganhando sem trabalhar. Não podia imaginar um dia sem
ti. (Com o ego ferido.) Durante algum tempo cheguei a duvidar de mim
própria. O que eu sou não se altera, mas esta cara, este
corpo... mudam.
(Pausa.)
Espero não te ter ofendido. Deus me livre! Só esperava
voltar a ver-te. Queria que soubesses que se naquela noite me
conheceste como uma má amante, daí para a frente tudo
mudaria. Mas ao mesmo tempo sentia medo! Medo de não poder
divertir-te, e de já não poder divertir nenhum homem.
(Pausa.) Talvez não seja fácil compreenderes. Ao fim e ao
cabo és um homem... Mas, como explicar-te? É como se a
tua maior preocupação fosse fazer feliz alguém que
ainda não conheces.
(Pausa. Medita.)
Ainda à custa da tua felicidade. Porque, já te disse,
não são muitas as mulheres que chegam a uma
satisfação plena.
(Olha para o manequim. Irónica.)
Claro. Até isso não te importa, não é? O
facto é que... (Nervosa.) Desculpa-me. Serei breve. O que quero
dizer é que sei que não só seria infeliz como
faria os outros infelizes. (Lutando consigo mesma.)E isso
atormentava-me!
(Breve sorriso.)
Ema avisou-me... e ajudou-me. Oh Deus! Algum dia talvez a
conheças. Saberás então a grande amiga que
é. Sem ela não sei para onde me tinham mandado. Sei que
todos gozam da minha fealdade nas minhas costas. Surpreendo-os sempre a
olharem-se com sorrisos de cumplicidade. Ema confirmou-me, mas
também me disse que no nosso meio temos que parecer de boas
famílias. Então, em vez de lhes responder com modos
grosseiros, submeti-me a um calvário de bom comportamento. E
tudo melhorou. Basta um pouco de esforço para melhorar tudo,
não é assim?
(Pausa. Sorri triunfante. Finalmente ri às gargalhadas.)
Mas, finalmente, uma quarta-feira à tarde recebi o teu
telefonema. Querias propor-me um encontro. Conheço-te como se
fosses a minha própria sombra. (Ri. Fica séria de
repente.) Mas eu não sou uma mulher fácil. Não
levantei o telefone. Agora, depois de uma semana, aceitei. Sei que me
desejas. Eu desejo-te. Somos adultos. (Olha para o manequim.) É
altura de definirmos a nossa relação frente a frente.
Desta vez não será por uma noite. Promete-o. Sairemos
juntos. Dormiremos. Vamos celebrar.
(Pausa. Levanta-se triste e vai à cozinha, procura um copo,
serve-se enquanto fala.)
Cala-te! Não quero ouvir falar outra vez dos teus traumas de
infância. Que têm de especial? São história.
Que é que pode ter de especial o que já passou?
(Brincalhona.) Na alvorada está o meu pôr de sol, dizias.
Também posso impressionar-te dizendo que na obscuridade
está a minha luz. Muito bem, guardemos as nossas opiniões
para mais tarde. Mas a poesia também cansa. Tanta beleza abunda
na porcaria das latrinas.
(Tira de uma gaveta do armário cinco livros idênticos.)
Certo. Celebraste por a primeira edição das tuas
sátiras ter esgotado tão depressa. Deu-me trabalho
adquirir todos os exemplares soltos da nossa cidade. Escuta.
(Lê.)
Tampouco houve motivos de sacrifício
Por um povo escravizado e ingrato
“Escravizado”... por uma sociedade burguesa. “Ingrato”... pela sua
indiferença em relação a ti. És um livro
aberto para mim, Guilherme. E embora tantos críticos frustrados,
grupo de rancorosos repórteres de tablóides, te tenham
persuadido a abandonar a sátira, não há motivo
para tristeza. Algum dia, ouve-me, algum dia todos estes exemplares
valerão uma fortuna.
(Procura em todos os sítios. Triste.)
Além disso, ainda és um homem jovem e saudável.
(Encontra uma caixa de cigarros. Tira um. Alegre.)
Eu também estou bem, para a minha idade. Não achas?
(Acende o cigarro com determinação.)
Estou inspirada... é tudo. (Resignada.) Sim! Claro que te amo.
(Sorri.) Estou apaixonada... serei fiel. Se não fosse assim,
acreditas que estaria contigo durante dois anos? Para mim é como
se tivessem passado numa fracção de segundo. Oh,
desculpa-me. Esqueci como te incomodava o fumo do cigarro.
(Vai à janela. Abre-a e uma brisa ligeira faz estremecer os seus
cabelos. Ouve-se o trânsito da cidade.)
Anoitece e ainda não respondeste à minha pergunta.
(Pausa. Apaga o cigarro impaciente e fecha a janela.)
Que queres que vista esta noite?
(Avança impaciente para a frente do quarto.)
Não! Desta vez a tua ajuda é-me imprescindível,
Guilherme. Tu, mais que ninguém, deves orientar-me... Mas como
podes ser tão mal educado? Meu Deus! Eu sei tudo! Faz um ano e
meio que nos separamos naquele motel. Dezassete meses e três dias
perdido nas ruas. Também eu sofri. Temos de reconhecer! A roupa
com que te visto é velha, e... (Pensa.) Tu sabes... em todo este
tempo todo a moda altera-se.
(Vai até ao manequim. Massaja os seus ombros.)
Tens que me dar razão. Pelo menos desta vez, não achas?
(Sorri. Pausa.) Como esquecer os nossos excessos? Naquela noite
estiveste impecável.
(Tira do armário um pano vermelho e sacode-o.)
Quem podia acreditar? Eu, que nunca assisti a uma conferência,
estava ali, na primeira fila, à tua frente. Agora não me
recordo do nome do rapaz que me acompanhava. Foi ele que me convidou.
Tinha-o conhecido recentemente e... não sei, não tinha
compromissos e aceitei o convite... Oh! Não há motivo
para teres ciúmes. Era um rapaz que procurava a mãe no
sítio errado. Foi isso que me disse no bar onde nos conhecemos.
Meses depois, na véspera do seu casamento, veio despedir-se. Os
estudantes desagradam-me, tu sabes. Ainda por cima, agora que o penso,
foi pouco original. Tinha sido mais educado um convite para o cinema,
por exemplo. (Pausa.) Pergunto-me se estará divorciado. Talvez
deva contactá-lo.
(Dá gargalhadas. Acaricia o manequim na face e afasta-se para
arrumar os móveis do apartamento. Encontra um recorte de jornal
dentro de um livro.)
Ficas tão terno quando te enfureces! Juro-te! Não
falaremos mais dele... Mas, o que é que querias saber? Ah, sim!
Claro... (Pensa. Ri.) Sabias que naquela noite, durante a
conferência, fui incapaz de decifrar a expressão dos teus
olhos? Não? Oh, devias ver-te ao espelho de vez em quando!...
Eram uns olhos doces, mas também arrogantes. (Suspira.) Oh, como
esquecer? Nicodemus homo est bellus. Desde então
reconstruí o teu passado... Serias – disse-me aquela noite – o
filho mais novo de uma família aristocrática. Numerosa,
mas decadente. Sem dúvida que foste mimado pelos teus pais e
pelos irmãos mais velhos. Uma infância feliz, o carimbo de
um adulto só. (Pausa. Impaciente.) Enganei-me, já sei. De
qualquer forma a primeira impressão é indelével.
Não gracejes, Guilherme! Tu disseste que a vida humana era mero
pensamento. Mas se há mudanças na vida, também as
há no pensamento. (Pausa.) A tua história manifestou-se
tão interessante como a que eu tinha imaginado... Não
insistas! És um intelectual, eu sei... Atrofias a tua
inspiração com as tuas dúvidas. Agora, ouvir-te
resmungar dessa maneira não deixa de ser desagradável.
(Irónica.) E não sabes quanto...
(Reflecte. Arrependida. Passa o indicador sobre uma prateleira.
Observa-o.)
Tanto pó põe-nos doentes. Deveríamos mudar para um
lugar menos contaminado. É uma batalha perdida. Já te
contei que querem demolir este prédio? (Recuperando a ideia
anterior.) Embora aí resida a tua maior virtude. No teu – como
hei-de dizer? – apego à verdade. No teu projecto de escrever,
algum dia, um livro inesgotável. (Depois de pensar.)
Pessoalmente não sou uma boa, nem tão pouco regular,
leitora... (Envergonhada.) Tu sabes... Talvez não possa
compreender o teu trabalho. (Pausa.) Refiro-me à tua
dedicação em ler e escrever. Recriar e criar. Negas os
prazeres com as letras. Não te magoa magoares-me de vez em
quando? Desesperas-me, Guilherme! Não me contradigas! Todas as
manhãs, quando te acordo, desapareces logo com os teus livros...
Até aos domingos! Podes ficar doente do coração.
Não, não me interpretes mal. Também detesto os
desportistas. Não estive na tua conferência?
(Lê o recorte do jornal.)
“Mente sã em corpo é um disparate.” Estou de acordo com
as tuas opiniões. “Corpo são em mente sã. Qualquer
tipo de competição é odiosa...”. Certo, há
sempre derrotados. “As vitórias dos desportistas são um
precedente para futuras contendas nacionais”. Escreveste-o precisamente
antes da guerra. Agrada-me sobretudo a tua ironia final. O remate
contra as olimpíadas. “Encarnam o espírito dos lavradores
e pescadores de antigamente.”
(Dá gargalhadas. Limpa o pó com um espanador de plumas.)
Pareces-te com o meu avô quando agonizava. Quero dizer, o meu
avô paterno. Sabes que o outro eu nunca conheci. Morreu de
cancro... o paterno. (Olha-o.) Não me irrites, Guilherme.
(Pausa.) Não estou disposta a suportar as tuas ironias baratas.
(Agressiva.) Mas... Com que direito me levantas a voz? Digo a verdade!
(Dá socos ao manequim. Afasta-se assustada.)
Está bem. Não discutamos... Não, não te
preocupes. Estou bem. (Pausa.) Não tens porque desculpar-te. Fui
eu quem te provocou primeiro. (Emocionada.) Oh, Guilherme! Perdoa-me.
Falo demasiado, mas só a gente sincera tagarela assim. Quem fala
pouco é arrogante. Não me leves a mal. Refiro-me aos
outros. De futuro não mencionarei mais histórias do meu
avô. (Pausa. Suspira.) Apesar de tudo és um homem seguro e
elegante. (Pausa.) Soube-o desde o início. Sabes aonde vais...
(Trémula.) E, o que é melhor, reconheces os teus
defeitos. (Consigo mesma.) Aquela noite fui feliz. Sabia que por estar
livre me amarias. E eu a ti. Viveríamos juntos, um para o outro.
Quem o ia acreditar? E tu me aceitarias. Desde então espero que
o nosso destino chegue com prazer. (Sorri.) Tu analisando a minha vida
como se de uma partida de xadrez se tratasse.
(Move as peças do tabuleiro.)
E eu estaria preparada para colaborar. Depois da primeira jogada,
analisaríamos a seguinte e a anterior. Sim, peças de
xadrez no vasto campo das noites negras e dos dias brancos. (Duvida.)
Sim. Sem dúvida que cometeríamos erros. Seríamos
eliminados. Uma vergonha. Mas não haveria censuras. Não.
Naturalmente que não.
(Afasta-se deixando as peças de xadrez desordenadas.)
Em breve fará dois anos que aceitei viver contigo... A minha
vida mudou. É evidente. Agora menos amigos me visitam. Mas
já anteriormente eram incertos. É natural. Eles
escandalizaram-se com a nossa união. De qualquer modo já
sabem. Caso contrário procurar-me-iam. Convidar-me-iam para...
Não sei, jantar em sua casa, num restaurante, como nos velhos
tempos. Lembras-te do Alberto? Não, não creio. Era um bom
rapaz, embora tímido. (Sorri.) Agora sei que nunca o
conheceste... tanto melhor.
(Senta-se em frente ao espelho e penteia o cabelo.)
Até te conhecer nunca duvidei do meu trabalho. Como chefe de
vendas ganhava um bom salário. Lembras-te do que aconteceu?
Renunciei e fui trabalhar para um centro de investigação
sociológica. (Pausa.) Não te enganes. Nunca quis
desafiar-te. Desde miúda que quero escrever artigos que revelem
os momentos conjunturais da nossa história. (Fria.) Certo.
É uma frase tua, mas vem a propósito.
(Levanta-se e beija o manequim.)
O resto já sabes. Renunciei. Foi uma ideia tua. No início
não estava de acordo, mas a tua obstinada oposição
convenceu-me.
(Coloca uma peruca no manequim e penteia-o.)
Tive que empenhar as minhas jóias para subsistir. Para ti foi um
golpe duro. Eu sei. Mas era necessário. (Pausa.) Mais tarde fui
contratada como secretária. Desde então a minha carreira
estancou. (Pausa.) Não, não te aflijas. Sabes que
não há razão para te incomodares. Acho que o fato
preto te fica bem!
(Abre a janela. O som do trânsito diminuiu.)
Foi uma tarde quente. Mas agora está uma brisa fresca e o
ruído do trânsito amainou.
(Fecha a janela.)
Vou vestir-te. (Tira um fato preto coçado do armário.)
Mas antes de ser secretária. Tive aulas numa escola de belas
artes. (Pausa.) Os modelos? Sim, são bonitos se os imaginarmos
bonitos. Acredita que jamais me interessei por eles. Tu, pelo
contrário, reuniste dinheiro suficiente para comprar um
automóvel. Não te faças de tonto. Todas as
manhãs te via passar em frente à estação
dos autocarros com aquela mulherzita de cabelos negros. Ficava furiosa!
E o que mais me irritava era que ela ia ao volante! Deus me perdoe, mas
no dia em que soube do teu acidente, fiquei contente. (Pausa.) Nunca
soube quanto dinheiro te pagou a companhia de seguros.
(Veste o manequim.)
Por mim só queria impressionar-te como artista. Que outro
parceiro melhor para um humanista como tu? Como escritora não
podia fazer nada. Já sabes. Não tenho paciência
para a leitura. Logo que percebo o enredo de um romance, salto para as
últimas páginas. (Subitamente.) A nossa
exposição teve ecos na imprensa. Foram publicados na Nova
Era. Uma revista decente. Ainda não me esqueci das tuas
críticas. Foste demasiado severo, Guilherme. Revias os textos e
eles pareciam-te obtusos. Sem saber porquê, re-escreveste dois
deles quatro vezes! (Pausa. Tranquiliza-se.) Jamais serão
publicados. É melhor não voltar a mencionar os artigos.
Voltemos à escultura. De facto, nunca gostaste. Uma
reacção que não me surpreendeu. De facto,
já a esperava. És um homem renitente a qualquer
mudança. E a minha obra era um conjunto de esculturas
pós-modernistas. Uma instalação com ossos de
porco. Éramos cinco artistas. É uma pena que não
tenhas assistido ao cocktail de inauguração. Mas eu
compreendo-te. Tinhas um encontro com Ana Karenina. Os compradores
acharam o meu trabalho interessante. Mas algum idiota não
imprimiu o meu nome nos panfletos.
(Sai e entra com uma escultura.)
Foi a minha melhor escultura. O público soube elogiá-la.
Um professor de uma escola secundária previu-me um bom futuro.
Não vendi nenhum trabalho. Esta é a tua prenda de anos.
(Coloca a escultura num local visível.)
Não é bonita, Guilherme? Não tem título,
mas foi inspirada em nós dois. (Pausa.) As esculturas dizem o
que nós fomos. Queres um café?
(Dirige-se à cozinha.)
Sem açúcar.
(Prepara café para duas chávenas.)
Pouco depois abandonei a escultura. Na realidade, tinha sido um bom
negócio, mas não me satisfez. (Sorri.) Parece que sou um
dos seres humanos que pode prescindir da arte. (Pausa.) Foi
então que decidi viver. Viver! É o que qualquer mulher
deseja quando está apaixonada... Embora nunca o tenhas
entendido. (Medita.) Compreendo-te. Pelo menos és sincero. Tanto
tu como eu somos sinceros. Caso contrário, a nossa
relação nunca tinha resultado.
(Vai até ao manequim. Recolhe e guarda as peças de
xadrez.)
É tarde, Guilherme. E ainda não me decidi. Talvez seja
adequado uma roupa branca. É elegante. Vamos, ajuda-me! (Pausa.)
Não acabaste o teu jogo de xadrez?
(Olha para o relógio.)
Tenho um compromisso às oito horas. Depois podes jogar o tempo
que quiseres.
(Guarda o tabuleiro no armário.)
Por agora... Meu Deus! Que se passa? Diz-me ao menos a cor da roupa que
vestias naquela noite.
(Leva as chávenas de café e serve-as sobre a mesa.
Alegre.)
É importante lembrá-lo. Assim poderei julgar os teus
gostos. Talvez as calças...
(Tenciona vestir as calças.)
Não. Estás enganado. A aparência pessoal é
sempre relevante. Estamos a falar do período de
sedução, Guilherme.
(Desiste.) Mais tarde, talvez tenhas razão. Mas no início
os homens não reparam nas maneiras, nem nos gestos, menos ainda
na personalidade.
(Ofegante, vira as costas num gesto magoado e olha-se num espelho
imaginário.)
No início era jovem e esquelética. Agora... envelhecemos
sem reparar. Se ao menos fosse fácil habituarmo-nos. Por Deus.
Temes que te abandone? Agora, depois de nos termos reconciliado.
Conhecendo-te tudo vai ser melhor. (Pausa.) Não te enganarei de
forma alguma. Assim comportas-te como um... como um misógino!
(Pausa.) Chega! Trata-se de mim! É tão difícil
aceitares a minha vontade? Francamente, não compreendo. Durante
algum tempo falei-te de António. Atraía-me. Confessei-to.
(Pausa.) De acordo, não pretendo voltar a falar dele. Quero
só que te lembres de que a tua atitude naquele tempo era a mais
sensata. Aceitavas o contacto físico. A tua voz já
não pode consolar-me. Não quero continuar a adivinhar
pensamentos. Foram dois anos de cópula desenfreada. Desculpa-me!
Há tantas loucuras por esquecer. És um homem
empreendedor. No nosso tédio, não o percebemos. Embora
Ema me tenha dito que um conhecimento profundo sempre decepciona. Por
isso preocupo-me com a cor deste vestido. Sim. É o mais
superficial, mas, por acaso, não é à
superfície que eu respiro? Tinha esperanças. Nunca me
faltarão. Dois anos, ao fim dos quais me resignei na minha
solidão sem ti. Interiorizei-te como a um parente morto. Mas
então divorciaste-te.
(Atira com força a chávena contra a parede.)
E dizes-me que não me devo preocupar! Não pensaste em
mim, Guilherme? Logo quando me habituei ao teu desprezo, deixaste essa
mulher para me tentares. Sei o que pensas. Não sou uma santa,
mas... nem sou o que tu pensas! Sou uma mulher. Compreenderás ao
menos a minha insistência? Não entendes que é
razoável, que é perfeitamente razoável que queira
seduzir-te agora, quando todas as mulheres te abandonam? Que não
há silêncio nem pensamento capaz de te substituir?
Canalha! Não te suporto! Não te suporto mais!
(Põe-se em cima do manequim. Deita-se com ele na cama.
Envolve-se na roupa. Caem ao chão. Rebolam. Bate-lhe.)
És um filho da puta! Eu sabia! Isso, vamos! Bate-me. Bate com
força na menina Vasconcelos!
(A luz diminui até desaparecer. Um raio de lua entre pela
janela. Francisca ofegante fala para cima do manequim.)
Não só me estragas a vida, como também pretendes
controlá-la... Assim. E julgas que te engano. Mas todo o teu
esforço pela fidelidade... isso diz mais de ti do que de mim!
(Gestos de dor. Gritos de parto.)
Não! Ah, não digas mais!
(Luz full. Joana cai exausta sobre o manequim. Gatinha pelo
cenário. Ainda ofegante, chora.)
Canalha! Não quero saber mais de ti! Não, não
quero que me fales. Vai-te, vai-te daqui!
(Levanta-se. Vai ao placar e rasga os recortes de jornal com
fotografias de Guilherme.)
Não irei! Matar-te ei. Farei com que sofras como um porco!
(Pisa os recortes. Cada vez com menos força. Olha à sua
volta com estranheza. Abre a janela.)
Não entendo este delírio. Perdoa-me. (Triste.) Como pude
insultar-te, Guilherme? Insultei-te e tu, tu és a única
coisa que tenho. (Chora.)
(Recolhe os recortes, impaciente. Leva-os até à mesa e
tenta reconstrui-los.)
Rasguei-os. Guilherme, perdoas-me? (Pausa.) Diz-me que me perdoas.
(Acalma-se.) Recortá-los-ei de novo. Ema ajudar-me-á. Sei
que conhece pessoas que coleccionam jornais.
(Leva a chávena de Guilherme para a cozinha.)
Amanhã será outro dia. Talvez tudo seja igual. Ou
diferente. Não sei. Em último caso é algo que
depende de Guilherme. Por agora... Vejamos... Será melhor que te
levantes.
(Levanta o manequim e leva-o até à cadeira.)
És drástico, Guilherme. (Pausa. Satisfeita.) De acordo.
Vou vestir a roupa branca. Mas antes dá-me um beijo.
(Pausa. Insinua a sua boca em frente ao manequim.)
O teu mau génio é especial.
(Afasta-se do manequim. Sai e volta a entrar com uma tábua para
passar a ferro. Instala-se na lateral esquerda.)
Já sei. Estás cansado. Sem memória da morte.
Não entendo porque é que logo que acabamos de fazer amor
insistes em ficar sozinho. Enfim, é a tua natureza. Adão
quer, mas não suporta ejacular. Eu gostaria que me acarinhasses.
É o que qualquer mulher esperaria de um homem.
(Recolhe a roupa do chão e da cama. Dobra-a e guarda-a no
armário.)
Esta noite comportar-me-ei com naturalidade. Como se te conhecesse
desde sempre. Falaremos do tempo – não demasiado – para logo
discutirmos sobre a política nacional. (Pausa.) Não te
contradirei. Apenas insinuarei os temas. Assim tu falarás. Assim
te escutarei. (Pausa. Angustiada.) Embora ainda não tenha
ensaiado a apresentação. Não. Não me devo
preocupar, dou-te a razão. Improvisarei enquanto conduzo o auto.
(Tira do armário um vestido branco e um ferro de engomar.)
Estarei nervosa. É a minha maneira de ser. Tu conheces-me. Vive
no edifício Galeão II. Onde mora também a minha
prima Mariana. Não te falei dela?
(Passa a ferro.)
Não. De certeza que não. Conheci-a há pouco tempo.
Numa ocasião qualquer a minha mãe falou-me dela e deu-me
algumas informações. Já se sabe, o Porto é
uma cidade triste e convém poder contar com alguém.
Embora mal se conheça. (Pausa.) Agora visito-a com
frequência. Ela sabe que é por Guilherme. Amo-o... Se
é verdade, porque não dize-lo? Confessei-te há
pouco.
(A luz diminui. Guilherme entra pelo lado direito. O seu rosto é
inexpressivo. Francisca deixa de engomar. Dirige-se impulsivamente a
ele, mas detém-se depois do segundo passo.)
São doze e cinco. (Duvida.) Sou uma mulher tímida.
Não o devia pensar. Mas sou assim. (Pausa.) Terá
esquecido o encontro? Não, não creio...
(Avança pelo espaço com perturbação. Para
Guilherme:)
Desculpe! Não sabia que a porta estava sem tranca. Obrigado...
(Examina o espaço.)
É um apartamento bonito. Oh! Tem uma vista muito bonita. Daqui
você há de ver o crespúsculo. No meu apartamento
é ao contrário. Refiro-me ao amanhecer. Todas as
manhãs antes do trabalho recebo a luz pálida. (Pausa.)
Oh! Nem sempre acordo cedo aos fins de semana. Só de vez em
quando. Sofro de insónias. Não sabia? Bom, não
é importante. Compreendo. Você vive num décimo
andar. Como eu. (Sorri.) Apesar de tudo não me sinto só.
Um vasto panorama acho que é suficiente. Enquanto estudante
universitária partilhei o meu pequeno quarto com outras
mulheres. Tinha vista. De uma forma ou de outra arranjava sempre
maneira de dormir de cara para a janela. Daqui você deve
inspirar-se. Observando hora após hora esta aspereza sobre a
terra que são as cidades.
(Fixa o olhar num ponto definido.)
Ali! Seguramente já pousou os olhos naquele edifício. Uma
construção circular, com vidros espelhados, azul e
branca. E a janela... a terceira, no décimo segundo piso, da
direita para a esquerda. Pode-a ver directamente daqui! Nunca pensei
que nós, perdidos na multidão, trocássemos
olhares. Sim. Desapareço nos entardeceres, como o sol quando se
escapa entre as suas fráguas. São os anoiteceres - quem
diria? – que o embelezam com os raios que eu admiro nas manhãs.
Eu também o vi, Guilherme. Permita-me que o trate pelo nome.
Não se lembra de mim?... Não importa. Agora
recordar-me-à. (Observando a paisagem.) Descobrimos o mesmo
espaço. Devemos celebrar. Podíamos passar a noite nesta
varanda. Trago, por acaso, uma garrafa de vinho branco. E cigarros,
pois você fuma. Eu não fumo. (Sorri.) Contaremos
histórias.
(Abraça com suavidade o corpo inexpressivo de Guilherme.)
Será divertido inventar alguma história. A formiga que
salvou a avestruz contra a sua vontade. A ave e o insecto que se
encontram no mesmo espaço debaixo da terra. A avestruz pede-lhe
que a salvem dos caçadores. A formiga, sem responder, pica a
avestruz num dos olhos. A ave, tal é a dor, corre até que
escapa dos seus perseguidores. Não recordo a sua moral. Talvez
me possa ajudar. Se é que lhe agrada. Convivi com a sua
personalidade tanto tempo. (Triste.) Contarei a minha vida e tu
conhecer-me-às. Quando o silêncio nos embriagar faremos
amor. Mudos debaixo da luz de uma estrela.
(Luz azul. Música Suave. Francisca encosta a cabeça no
peito de Guilherme. Dançam.)
Não. Por enquanto convém esperar. Ainda não te
separaste. Além disso há a minha mãe. Quer que eu
me case, mas nunca consentiria que o fizesse com um homem recém
divorciado... Perdoa-me, mas tens que desistir. (Muito triste.)
És o que eu mais quero, Guilherme. Não, não
é isso. Amo-te, mas... mas, oh, não... És,
és tão especial e eu, eu não sou uma mulher
bonita. (Chora.) São lágrimas de felicidade, desde
já. A minha mãe compreenderá. Juntos seremos
felizes.
(Separam-se. Guilherme sai. A luz recupera a intensidade. Triste, para
o manequim:)
Acompanhaste-me durante dois anos. Dei-te tudo. Fiz tudo ao teu gosto.
Nunca dirás que deixei de te amar. Os desgostos de amor
não matam, transtornam.
(Volta a engomar.)
Às vezes pergunto-me o que será de mim amanhã.
Oxalá morra. Assim, ao menos, deixaria de me preocupar contigo.
Arrastar-me-ía como um animal. Ou como uma louca. (Pausa. Sorri
com desprezo.) A tua sogra está doente. Não há
dúvida de que morrerá. Não a querem no lar.
Não é minha a culpa. Desde que me amamentou que é
uma mulher dominadora. Soube dominar o meu pai a seu gosto.
Oxalá eu tivesse herdado esse talento para contigo. Tinha sido
em vão. Sabes que de uma forma ou de outra eu sempre me submeto
ao teu juízo. Mortifico-me amando-te. É algo que a minha
mãe desconhece, que nunca conheceu. Ainda me pergunto como me
pode educar dessa forma... Sabes?, sinto um pouco de pena por
ela. Em breve morrerá.
(Estende o seu vestido.)
Já está! (Pausa.) Não. Não vou comer. Assim
ficarei um pouco mais magra.
(Tira um par de sapatos do armário. Veste-se.)
De acordo. Podes jogar xadrez. No congelador há cabrito e
batatas cortadas. Podes assá-las no forno. (Triste.) Ema
não me telefonou. É raro. Devia tê-lo feito. Mais
um dia sem ouvir outra voz para além da minha nesta casa. Oh!
Mariana também não me telefonou. Não estranho. De
certeza que se cansou de me deixar as chaves do seu apartamento na
recepção do seu edifício. Mas Ema... Espero que
não lhe tenha acontecido nada. Uma mulher solteira pode sofrer
tantos precalços. (Despreocupando-se.) Não. Sou uma
tonta. Ema nunca fica em casa às sextas à noite.
Há muitos restaurantes, muitas discotecas. É uma pena.
Homens como tu nunca frequentam esses sítios. Lembras-te da
tarde em que me convidaste para ir a uma biblioteca? No início
pensei que era brincadeira, mas comoveu-me saber que a tua
intenção era séria. Nunca me tinham convidado para
ler. (Pausa.) Talvez não tenha sido contigo mas sim com
António. Com os anos os rostos misturam-se. Quem quer que fosse,
era natural que eu me negasse a acompanhá-lo. Ver tantos livros
juntos dá-me naúseas.
(Pega na bolsa do cabide.)
Amanhã vou às compras à tarde. Preciso de roupa
para...
(Pausa. Permanece imóvel perante um mau pensamento.)
Podia acabar tudo. Não é assim Guilherme? (Pausa.) Sendo
assim, seria conveniente continuarmos o fim de semana neste
sítio. Esquecer os nossos vícios. Podíamos ver os
programas na televisão até que a tarde acabe.
Alugaríamos alguns vídeos. Podíamos telefonar para
o restaurante, para nos trazerem alguma coisa para comer. E
amanhã, outra vez, com Ema, saíria para comprar comida
para a semana e mais tarde iria à igreja.
(Olha para o público. Observa o manequim.)
De acordo. Irei.
(Sai. Escuro.)
ACTO II
Mesmo sítio uma semana depois. O manequim descansa sobre uma
poltrona rodeada por quatro círios, está nu. Luz de
céu encapotado. Grosas cortinas cobertas de pó cobrem as
janelas. Sobre a mesa e no chão há pratos e louça
por lavar.
Obscuridade. Francisca inteiramente vestida de negro entra e acende os
círios, um atrás do outro.
Francisca
O preço dos legumes aumentou. Ema acha que é por causa da
guerra. Terá as suas razões para isso. Mas nos nossos
campos não escasseiam os legumes. As bananas e os tomates
apodrecem nas margens dos rios. Os animais abundam. Tanto sustento
farta. Deus sabe que não se matam por fome, mas por gula.
(Beija o manequim na boca e sorri. Vai à cozinha, pega em
três pacotes de papel com compras e leva-os até à
mesa.)
Não te preocupes. Também desaprovo as guerras. Mas
também as considero necessárias. Só o sofrimento
nos redime. Também dizem que o excesso de
população acabará connosco. Já sabes como
vivem as pessoas na Índia e na China. Amontoadas.
É injusto. (Pausa) Guilherme! Por favor!
(Sorri irónica. Tira dos pacotes as compras, uma por uma, e
examina as etiquetas dos preços.)
Como podes ser partidário de tanta procriação?
Essas mulheres reproduzem como coelhos. A economia avança,
não se discute. Mas os asiáticos, assim com tanta gente,
são um povo infeliz. Aceita-o! São cadáveres!
Vamos! Não negarás que o são! Todos somos. Tanta
vida e tão pouco espaço. O ar também escasseia
neste lugar. São os espectros que saciam a garganta do inferno.
(Pausa)
Sim. Para ti sempre tenho sido impertinente. “Vulgar” é a
palavra. Grosseira, não é? (Enfrentando-o.) Bem. As tuas
ideias não me interessam para nada. Acho que não sou
infeliz. (Tentando mudar de tema.) Mais vale que não culpemos os
estrangeiros pelas nossas penas.
(Observa a etiqueta de um produto.) Não aumentaram o
preço de uma barra de sabão em dois anos. Sabias que
durante o mês de Novembro a inflação foi
mínima? Na verdade, nunca noto a diferença.
(Pausa. Colérica, atirando a barra de sabão ao
chão.)
Já chega! Cada vez te suporto menos. Aprenderás a
ouvir-me ao menos mais um dia? Tens uma capacidade única para me
fazeres sentir como uma estúpida. Não negues. Tratas-me
como se fosse lixo inútil.
(Olha para o manequim. Tenta acalmar-se. Cruza o espaço. Recolhe
a barra de sabão.)
De qualquer forma já não vale a pena discutir contigo.
Sabes que tenho os nervos alterados.
(Observa o público.)
É tão fácil ver em cada pessoa um maníaco.
Esquizofrénica, paranóica, termino por render-me ao seu
desprezo.
(Para o manequim.) Os psiquiatras intimidam-me. Só confio nos
confessores. Mas faz tanto tempo que não vou a uma igreja. Hoje
foi dia de pagamento e é natural que esteja cansada. As
sextas-feiras são assim. Ainda por cima despediram o
contabilista. Não era um homem honesto.
(Vai até à cozinha. Pega num embrulho e enquanto fala
tira de lá um casaco cinzento, uma camisa, uma cartola, uma
gravata e um par de meias.)
Falemos de moda. (Experimenta as peças de roupa.) Não
gostas? (Sorri.) Guarda o teu agradecimento para mais tarde. Ver-te
sempre com a mesma roupa cansa. A cor também combina melhor com
os teus pesares. Prelúdio de tormentas, cinzento, cor de quem se
atormenta. A camisa e as meias são brancas. A gravata, quis
comprá-la de um tom semelhante ao fato, mas não
encontrei. O atendimento foi péssimo. Se eu fosse a
proprietária daquele armazém, esforçar-me-ia por
agradar aos clientes. Talvez a arrogância seja lucrativa. De
qualquer forma esta fica-te bastante bem.
(Pausa. Veste o manequim. Pára.)
Não quererás esperar até amanhã. Na
segunda-feira comprarei um par de sapatos brancos. Prometido. Por
agora, estou certa de que os pretos não ficarão mal.
(Veste o manequim. Suspira nervosa.)
A verdade é que não devia ter ido. Era o mais sensato.
Mas eu sou uma mulher frágil. Sujeitando-me sempre a
emoções caprichosas.
(Descontente com as calças.)
Este corte é demasiado jovem... Mariana já não me
quer falar. Sabias? Não disfarces. (Sorri contendo a sua ira.)
Parece que naquela noite não deixei uma boa impressão
entre os vizinhos. Embora tenham a liberdade de me culpar, eu
não os culpo.
(Afasta-se do manequim.)
Já não me ferem as tuas frases venenosas. Desde logo!
Toda a culpa é minha! Nunca o neguei. Não me arrependo.
Sempre, desde o começo, abusei da nossa intimidade. Comecei
venerando-te como a um boneco. Era um mero passatempo da minha vida
adulta. Talvez António, talvez João, Roberto. Mas
escolhi-te entre todos os rejeitados. Dois anos em que a juventude
passa. Fui arrastada. Só pude agarrar-me a esta mentira
indispensável. Um romance entre Guilherme e Francisca.
Até quando? Diz-me, até quando aceitarás que eu
também posso ter razão por uma vez? Contesta-me!
(Pausa.)
É inútil. Nunca mudarás. Sempre o mesmo. Metes-me
nojo.
(Volta a vestir o manequim.)
Não fales comigo. De futuro não contarei contigo. Ainda
guardo os telefones dos meus colegas de trabalho. Homens ébrios
de corpos robustos. (Pausa.) Desta vez será inútil que me
queiras dissuadir.
(Pausa.)
Ontem quis reconciliar-me com Mariana. Falei com o seu marido, que me
disse que ela não queria falar comigo. Talvez a minha prima
fosse mais amável se eu tivesse um futuro promissor. Mas os
nossos laços de sangue distanciam-nos. Não o lamento.
Nunca deixou de ser uma desconhecida para mim.
(Trovão. Gotas de chuva. Francisca fecha as janelas. Veste o
manequim.)
Conheço-me a mim mesma, ainda com tanto erros. Estou sempre a
dizer-me que não me importa o que os outros pensam de mim, mas
de uma forma ou outra relaciono-me com algum estranho. Falo da noite em
que tive o meu primeiro encontro com Guilherme. Queria entrar furtiva
no seu apartamento. Mas não faltou a vizinha que me importunava.
Agora que me lembro, ela podia ter pensado que eu era... que eu...
não. Não. (Riso breve.) Meu Deus! Que ideias tão
pervertidas passam por esta cabeça? (Olha fixamente o rosto do
manequim.) Não é justo. Quero dizer, que me humilhem como
a uma prostituta. (Atormentada.) São muitos. Demasiados. Mas
Deus pôs-me neste mundo. Nunca deixará que me esmaguem.
Por isso, estás a ouvir-me? Por isso olho-os, de há algum
tempo para cá, nos olhos. Fixamente. Incomodam-se.
(Pausa. Continua vestindo o manequim.)
Ema? Parece que tem pouco tempo. Ela não se sente bem desde
aquele sábado. Lembras-te? O seu silêncio preocupava-me.
Sei que a depressão que sofre não é fácil
de remediar. Oh Deus! Parecia tão lúcida. Agora sinto-me
tão só.
(Veste com tristeza contida o manequim.)
Compreendes o que te digo, não é?... Sinto-me mal. A
atitude das pessoas amedronta-me. Ema era minha amiga. Quantas vezes
conversei com ela nos cafés. Na sexta-feira, depois de sair do
trabalho, alguém a acusou de ter desfalcado a sua empresa.
Colegas que apenas a saudavam, recriminaram-na pela sua
arrogância. E despediram-na como a uma indigente. Quando o soube
já era tarde. Agora odeia-me, como a todos. Diz que a
atraiçoámos, mas como pode incluir-me entre tantos Judas?
Com tantos anos, sem lar. As pessoas podem ser tão
egoístas. (Pausa.) Nunca confiei nos homens. Mas a
desconfiança nunca me tranquiliza. Meu Deus! Eu creio na tua
misericórdia. Sem ela tínhamos naufragado.
(Observa o manequim.)
Não tenho dúvidas. É a roupa que te fica melhor.
(Pega num saco e tira um vestido preto de lantejoulas.
Melancólica.)
Gostas? Diz-me que adoras. O negro agrada-nos, tanto como uma noite
depois de uma tristeza. (Sorrindo.) Não me incomodo. Há
só uma coisa que devo falar contigo. Talvez já o saibas.
Na quinta feira, no trabalho, cortejaram-me. Não todos, claro.
Só alguns. José, Manuel, Francisco, Romeu. Não,
não! O Alberto nunca. (Sorri.) A ele a mulher basta-lhe.
(Pausa. Volta a tirar as compras do saco.)
Mas já sabes, quando lhes falo de ti, calam-se. Só lhes
interessa divertirem-se (Pausa.) Não, não há nada
que estranhar, Guilherme. Desde o início trataram-me assim.
São incapazes de compreender uma senhora. Mas eu amo-os com a
paixão que só os atraiçoados conhecem. Enfim,
não há que reparar mais neles. Outros homens
virão. A partir de agora só vestirei tons uniformes.
Depois da juventude a distinção acaba. Brancos, negros e
lilases. A partir de segunda à tarde. (Sorriso forçado.)
Já não trabalho, não sabias? Antes de ser
despedida renunciei. Agora sou livre. De alguma forma é como no
início, quando ainda acreditava que uma mulher podia fazer um
homem feliz. Agora podemos passar o tempo juntos. Tu lendo; eu
aperaltando-me para os meus compromissos. Sem mais escrúpulos.
Talvez volte à escultura.
(Tira as compras com rapidez.)
Não te preocupes com o dinheiro. Alguma coisa me darão os
meus pretendentes. Devíamos comprar uma nova pasta dos dentes.
Embora digam que já melhoraram esta marca. Ouviste a cantilena:
“Dentes brancos como a neve
Dentes limpos como branco
Dentes Branca de Neve”
Devias sintonizar o rádio de vez em quando. É melhor do
que andar atarefado em tantas conferências. (Experimenta umas
lâminas de barbear.) Que tal? Não são boas? No
anúncio dizia que eram suaves. Só as sentirás
quando te barbeias. É só uma sugestão. Não
gosto dessa barba grande. (Pausa.) As antigas oxidaram-se sem que as
usasses.
(Despe-se.)
De acordo. Não. Já sabes que não me agrada comprar
livros. Os que tens chegam. Mas poderás ler os jornais a partir
de terça-feira. Ainda não marquei nenhum encontro para
segunda-feira à noite, mas de qualquer forma falarei com o
gerente da minha empresa. Acho que me quer oferecer um novo emprego.
(Veste o vestido preto.)
Sim. Seria injusto. Começo a arrepender-me de ter renunciado ao
meu trabalho. Talvez nunca me tivessem despedido. Sou uma mulher
resignada. Sempre disposta a trabalhar horas extraordinárias.
Não. Não foi fácil abandonar o meu lugar.
(Tira do armário uma caixa com cosméticos. Maquilha-se de
frente para o público.)
Não é o mesmo. Compreende-me. Sim. Tu estás
cá todas as noites. Não nos enganemos. Sabes que
não é fácil mudar de hábitos em apenas
três dias. Pensa em nós. Levou-nos quase um ano a
adaptar-nos. (Não encontra a expressão adequada. Elege a
sinceridade.) De maneira que... enfim... sabes o mal que
passámos em cada fim de semana. Convertemos este quarto num
mausoléu. Desligamo-nos da multidão. Especialmente aos
domingos. É lógico. Mais tarde ou mais cedo eu calo-me e
tu... Tu pensas. Antes da melodia acabam-se as palavras. Não
é difícil entender-me.
(Pausa. Sofre um desvanecimento. Agarra o estômago com as
mãos. Cai no chão. Respira com dificuldade.)
Não é nada. Será a dieta. Não há
razão para preocupações. Ficarei bem. (Sorri.)
São os anos que não chegam sozinhos. A sua gordura
é a mais dura. Uma operação seria
irremediável. (Recompõe-se.) Talvez por isso Ema quisesse
entrar no ginásio. Pergunto-me se devo acompanhá-la.
Não estou a brincar. Saltaremos até cair mortas de
cansaço. Mas já te disse. Por agora Ema rejeita-me. Ainda
tenho dinheiro para me matricular noutro sítio.
(Recordação repentina. Procura dentro do armário.)
Não esqueço. Tenho sempre as tuas sátiras
presentes.
(Encontra o livro de poemas. Lê.)
Vinte pescoços dilatam veias
Quarenta braços levantam pesos
Aqui descreves um centro de ginástica aeróbica. (Pausa.)
Dou-te razão. Mais tarde ou mais cedo temos de desistir.
(Pausa.)
Não me perguntaste as razões da minha renúncia.
(Pausa.) Não te zangues com o que te vou dizer, mas acho que
tudo começou entre mim e ti. Quero dizer, nos meus discursos.
Há outras pessoas que falam sozinhas. Não
pretenderás cobrir o sol com as tuas mãos. A
solidão é doentia. Não só no trabalho, mas
também na rua. Vi inclusive algumas mulheres que cantam por
algumas moedas. Na margem do Douro. Tristes mas não
solitárias. Não incomodam ninguém. Mas eu
não canto. Não danço. Apenas sobrevivo.
José Manuel, Francisco, Romeu, descobri-os todos a gozarem
comigo. (Pausa. Magoada, no chão.) Agora estou mais convencida
do que nunca de que sem a minha renúncia, a companhia não
me tinha despedido na segunda-feira. Não falta quem me associe
com os desfalques da nossa empresa. Esses miseráveis tratam-me
com hipocrisia e desprezo. Preferiria a prisão às suas
suspeitas. Assim, teriam pena de mim. Olha! (Aponta para fora.) A noite
avança. Às vezes também acho que, como a minha
mãe, perco a razão. É verdade. Perco-a, Guilherme.
Não é justo. Nenhum ser humano me dirá que
é justo! Nunca te importou. Não interessa. Habituo-me
à ideia. Também me desprezaste, como a tantas outras.
Como à tua esposa. Como à tua mãe. Sei-o porque
também desprezei inocentes. As pessoas respeitavam-me assim.
Não defendas as minhas vergonhas. Seria outra loucura. Já
não... Noutra altura sim, talvez. Sempre noutra altura. O
presente é um pássaro de papel que não podemos
apressar. Antes de te conhecer tive tantos homens nos meus
braços.
(Murmúrio de risos.)
Nunca te ocultei. Os teus ciúmes já não valem a
pena. Entre todos nenhum me escolheu. Sim. Podem gozar à vontade!
(Risos sonoros. Francisca soluça. Guilherme entra como no
primeiro acto e os risos param. Mudança de luz. Francisca
levanta-se e vai ao seu encontro.)
Não se preocupe. Não. Não me sinto mal.
Conheço a saída. Prometa-me que não me
julgará. De qualquer forma saiba que sou uma mulher honrada, da
família dos Albuquerque. Sim. Como o general que venceu tantas
batalhas. Bom, você já anotou o número do meu
telefone. Obrigado. No que eu o possa ajudar, pode-me telefonar.
(Sorri.) Não tem que agradecer. Peço-lhe. Deixa-me
envergonhada. Considere-o um favor. Não de uma amiga, mas de
uma... (com dificuldade) pretendente. Alguém que lhe deseja o
melhor. Acredite-me, a sua despedida é suficiente. Agora,
desculpe-me. Você, que lê tanto, está a perder tempo
com uma simples secretária como eu. Agora lembro-me. Sim. Sou a
Francisca. Francisca Albuquerque. Quem conheceu e conquistou na sua
universidade. Nessa noite acompanhei-o até à
estação do autocarro. Não. Você não
estava bêbado. Até tomámos um café.
(Entusiasmada.) Sabia que se lembraria de mim. Há tantas
premonições entre nós. Quando for ao meu
apartamento sentir-se-á como em sua própria casa...
Guilherme! Não! Perdoe-me se o ofendi. Não perca mais o
seu tempo. Sinto-me bem. Desde que vivo neste edifício. Estou
só, ninguém vem ter comigo. Não pensará que
venho... Pode falar com Mariana... Mariana... Não me lembro do
seu apelido. Somos primas direitas. (Nervosa.) Perdi a cabeça.
Desculpe-me.
(Avança até ao público. Exaltada. Música.)
Oh! Que bonita varanda! Mas, onde estão os seus livros?
Já vejo. Espero que saia para contemplar o pôr do sol. A
chuva também é bonita. Consola. Porque de uma forma ou de
outra estamos todos sós, embora outro corpo nos distraia. Sim.
Li as suas sátiras contra o governo. (Suspira.) Até as
pessoas da rua são belas. Veja como passam! Parecem formigas.
(A música morre antes do clímax.)
Sei que não é normal que alguém o visite assim,
depois de tanto tempo. Não o leve a mal. Talvez nunca me
perceba. Mas é necessário que o saiba. Eu... eu...
Não. Não é necessário chamar a
segurança do condomínio.
(Guilherme sai. Francisca corre para o manequim a chorar e
abraça-o com ternura.)
Ele não me amou. Mas é bom. É uma criança
doce... Inocente. Se o tivesses visto! É ainda mais bonito com o
cabelo branco. Sim. É certo. Porque nunca procurou amor. E nunca
lhe faltou. Porque é sensível e homens como ele
não amam. Esperam ser amados para se entregarem. O engano chega
como parte da mesma vida, e assumem-no, e sofrem-no com naturalidade,
como um espasmo, como se duma morte se tratasse...
(Pausa. Senta-se de frente para o público. Pinta os
lábios de vermelho vivo.)
Talvez algum dia me telefone. Então poderia amá-lo. Como
sempre quis. Como sou. Assim.
(Maquilha-se com destreza, atirando os cosméticos que usa para o
chão.)
Mas não é viável. Foi tudo uma perda de tempo.
É improvável. Tu conheces-me. No meio do teu
egoísmo tu sabes.
(Pausa. Agarra o manequim pelos ombros.)
Não permitirei que o insultes! Não permitirei que gozes
de novo à minha frente!...
(Enquanto o recrimina esbofeteia-o com força, sem parar,
até o atirar para o chão. Dá pontapés.)
Não te chega ter durado? Quero odiar-te. Sim. É verdade.
Estava no meu direito. Sacrificando-me por alguém que me
desprezava. Mas não pude resignar-me a tal infelicidade. Se ao
menos tivesse triunfado no meu trabalho. Só uma mulher solteira
e desempregada conhece a vantagem de nascer com um apêndice de
carne entre as pernas!
(Pausa.)
Tu sabias. Caso contrário nunca me tinhas deixado
avançar. Não. Omitiste-o à espera de colheres os
frutos. Querias presenciar a minha humilhação. Conhecias
a resposta de antemão. Porque para ti o meu primeiro encontro
não foi mais do que outra partida de xadrez perdida. Porque para
ti a Francisca nunca deixou de ser a quarentona afogada em
ciúmes. Assim, gozavas com a minha apatia. Não mintas!
Gozavas! E nem sequer tinhas vergonha de o esconder, porque imaginavas
os peões mortos e o bispo preto assassinado e a rainha exumando
miasmas.
(Ofegante. Aproxima-se do manequim com o corpo a transpirar.)
Mas enganaste-te. Porque desta vez não voltei com amor.
Odeio-te, Guilherme! Mais do que podes pensar! Mais do que um homem
odeia os assassinos dos seus pais! Farei com que tremas ao ouvir o meu
nome!
(Sobe as escadas ofegante. Trovões. Abre as portadas da janela.
O vento entra misturado com o ruído do trânsito.)
Olha aqueles edifícios! Olha para o mundo que negaste. O teu
próprio sangue! Por detrás dessas janelas mora a luz, a
obscuridade, o frio, a crueldade, o som de outras chuvas,
árvores ressequidas, crianças que apodrecem. (Ri
pateticamente.) E olha para os nossos quatro círios. Olha para a
tranquilidade do nosso enterro.
(Cai chorando, de joelhos à beira do abismo.)
Bastava um salto para acabar com esta mescla de arrogância e
vaidade. Não me consoles. Estou farta de tanta
mortificação. Farta da tua compaixão, de ti e de
mim própria. Não quero respeito. DES-PRE-ZO. Há
que acabar com tantas considerações. É o fim.
Sabemo-lo. Não há dia em que não discutamos, em
que não nos insultemos, em que não nos fartemos de tantos
sorrisos forçados. Sempre o mesmo e atrás de tudo, nada.
Vazio, tédio, estupidez.
(Pausa. O ruído do trânsito aumenta. O vento e a luz
contra o público hão-de insinuar a tontura.)
Infâmias! Dois desejos no meio de tanta indiferença. (Ri.)
Sim. Dificultamos. Porque para eles é igual morrer agora ou em
cento e cinquenta anos. Doze pisos entre hoje e o nada. Deixemos para
trás tanta indolência! Há todo o esquecimento
à nossa frente!
(Aponta o vazio.)
Acendemos os nossos círios! Acabemos com a farsa! Os dois, a
sós, como nunca estivemos! Esmaguemos esta vida de asco que o
azar nos ofereceu!
(Pausa. Cai de joelhos. Olha para o manequim.)
Gozas comigo, Guilherme? (Fria.) Ri-te. Ri-te de uma vez para sempre...
(Ri nervosamente. Cambaleia. Rosto seco. Leva as mãos à
cabeça. Grita. Toca o telefone. Os outros ruídos param.
Francisca reage. Regressa ao quarto com rapidez. Levanta o auscultador
do telefone.)
Estou?... Não... É engano... Sinto muito, mas agora estou
ocupada.
(Desliga.)
Vendedores.
(Para o manequim.)
Faz oito dias que te portaste mal. Rejeitaste-me.
(Dirige-se até à cozinha. Pega numa faca. A sua atitude
é, daqui em diante, de concentração.)
Como a um lixo inútil. Qual é a diferença?
Questionaste os meus propósitos. Não, Guilherme.
Não é fácil conviver contigo. (Pausa.) Agora
já não vale a pena saltar. Tão pouco vale a pena
eu condenar-me. Faz tempo que te devia ter abandonado. Por outra
pessoa. Os homens jamais me fizeram falta. Quem? João Miguel por
exemplo. Digo um nome entre tantos outros. Apenas o recordo. A sua cara
também se apagou. Alto, moreno, suado.
(Acaricia o manequim com a faca.)
Acho que era casado. Conheci-o num bar do centro. Num sábado
à noite. Estava frio. Eu estava cansada. Não me lembro de
como cheguei aquele lugar, mas cheguei. Pouco depois aquele homem
dormia junto a mim. Não esperamos pelo amanhecer para fazer
amor. Não. Levei-o a um motel perto da sua vivenda. (Riso
nervoso.) Eu mesma o levei. Que esperavas ouvir? Os elogios de uma
freira? (Ao público.) A tua atitude ingénua era de se
esperar. Inteira-te da verdade. Todos os sábados preparava-me
para jogar o mesmo jogo. Um e outro homem. Luís Eduardo, Manuel,
José, Joaquim... e tantos outros que já não posso
nem quero recordar.
(Beija o manequim com lentidão e cai ao chão.)
Vai-te! Desde que te conheço que não te suporto. Ainda
pequena era bonita. As pessoas do meu bairro mimavam-me com morangos,
rosas, chocolates. Lembras-te do que te dizia do Nuno? Foi um primeiro
amor e ambos acreditámos que o foi... E durou até
à adolescência, quando me neguei a entregar-me aos
caprichos de um marido.
(Levanta-se e penteia o cabelo.)
Agora administra um armazém alimentar. Não é
casado. Não tem filhos. Acho que se fartou das mulheres.
(Tira um monte de fotografias atadas por uma fita vermelha.)
Só restam vestígios. Marcas involuntárias do
passado. (Com indolência.) Disseste isso.
(Desenrola o embrulho.)
Sempre quis um filho. Um homem inteligente a quem amar. De quem cuidar.
Porquê?, perguntarás. (Olha à sua volta.)
Não há ninguém mais que queira acompanhar-me.
(Senta-se.)
Quando quis já era demasiado tarde. Cansei-me de procurar um pai
honrado. Nos bares só há lixo. Eu tinha-te preferido a
todos os outros. Agora já não posso iludir-me. Pensava
que tínhamos partilhado dois anos juntos. Mas enganava-me. Era a
minha solidão. A única doença que espanta. O peso
de cada dia obrigou-me a consolar-me com um pequeno manequim de trapo.
Acabou-se.
(Esfaqueia o manequim. Na primeira facada tem um ataque de riso que
declina lentamente até se tornar num soluço
contínuo. Deixa cair a faca ao chão. Mão no
púbis.)
Mulher, está aqui a tua obra. Homem, está aqui a tua
mãe. O amante sabe que passa, que o amor passa.
(Esbofeteia-o nas faces. Arranca as suas roupas.)
Já não voltarás, não é? Já
não terei que suportar todas as noites as marcas das tuas
chagas.
(O telefone toca. Atende.)
Estou?... Mariana... Tanto tempo sem saber de ti... Não tens que
pedir desculpa... Preferia que fosse aqui. Sim... Interessa-me...
Podemos falar... Hoje à tarde. Insisto, não há
nada que desculpar... Adeus.
(Desliga surpreendida. Recolhe o manequim. Põe-no diante do
armário. Apaga os círios. Dá ordens.)
Temos visitas. Guarda as tuas palavras para mais tarde. Faz seis,
não, sete meses que não recebemos ninguém em casa.
Tenho que preparar alguma coisa especial. Há-de ser simples,
desde logo. Mariana é uma boa mulher. Uma cristã devota.
Sempre o achei. Parece que quer oferecer-me um novo emprego.
(Rosto contrariado e impaciente.)
Tenho que telefonar para o restaurante. Um bacalhau seria o ideal. (Sem
alento.) E pensar que queria jejuar até ao final. Ao fim e ao
cabo, a decisão está tomada. Ambos nos comprometemos
até à morte. Parte de ti. Parte de mim. Unidos numa mesma
carne. Ainda escuto os teus latidos. Ouves? A tormenta dissipa-se.
Somos gotas de chuva ao sabor dos ventos.
(Chora.)
Mas os tormentos cessam.
(Sem deixar de ver o manequim, marca um número de telefone.)
Mariana? Desculpe, mas tenho outros compromissos... Preferia não
voltar a vê-la... Sinto-me perfeitamente bem... Adeus.
(Deixa o auscultador sobre a mesa. Não desliga. A luz diminui.
Guilherme emerge na penumbra, sorridente. Música, como o
capricho para piano nº 3 de Listz. Guilherme abraça-a. Ela
inclina-se sobre o seu ombro. Dançam.)
Talvez esta noite acabes, Guilherme. Talvez ainda possamos iniciar o
tempo inacabado. Navegando sem distâncias no mesmo mar... Vivendo
desde já os sucessos.
(Dançam. Beijam-se.)
(Black Out.)